Micose no couro cabeludo da criança: como reconhecer e tratar
Foto clínica real, de arquivo público (Wikimedia Commons), sem rosto e sem relação com paciente da clínica. Crédito ao fim do texto.
Micose no couro cabeludo, chamada tinha do couro cabeludo ou tinea capitis, é uma infecção por fungos que atinge a pele e os fios da cabeça, mais comum em crianças de 3 a 8 anos. Costuma aparecer como uma falha arredondada, com descamação e fios quebrados rente à pele, às vezes com pontinhos pretos e ínguas atrás da orelha ou na nuca. É contagiosa, e o tratamento costuma ser feito com antifúngico por via oral, porque o creme não chega à raiz do fio.
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, é o tipo de tinha mais comum na infância. Também está entre as causas mais frequentes de falha no cabelo e de queda de cabelo infantil, ao lado da alopecia areata, da queda difusa depois de doenças ou febre (eflúvio telógeno), da tração por penteados presos e do hábito de arrancar os fios. Cada uma tem um tratamento, e a diferença começa no exame.
Quais são os sinais de micose no couro cabeludo?
O aspecto varia conforme o fungo e a reação de cada criança:
- Placa com descamação: uma ou mais áreas arredondadas, com escamas finas, brancas ou acinzentadas, e menos cabelo.
- Fios quebrados rente à pele: o cabelo da área parece cortado bem curto e quebra com facilidade.
- Pontos pretos: fios que quebraram bem na saída da pele e ficaram como pontinhos escuros dentro da falha.
- Coceira, de intensidade variável.
- Ínguas atrás da orelha ou na nuca: gânglios que aumentam em reação à infecção. Não são exclusivos da micose, mas, junto com a falha, reforçam a suspeita.
- Área inchada, dolorida e com pus: é o kerion, a forma inflamatória.
Há também uma forma discreta, com descamação espalhada que lembra caspa e pouca ou nenhuma falha. Por isso, descamação que não passa no couro cabeludo de uma criança merece avaliação.
Uma a duas semanas depois do início da micose ou do tratamento, podem surgir bolinhas no couro cabeludo e no corpo. Em geral é uma reação de defesa ao fungo, chamada reação ide, que some com o tratamento, mas precisa ser diferenciada de reação ao remédio: avise a médica se aparecerem.
O que é o kerion e por que pede atenção?
É uma reação inflamatória intensa ao fungo. A área fica elevada, amolecida e dolorida, com pústulas e secreção, e os fios se soltam. Pode vir com ínguas, febre e mal-estar. Costuma ser confundido com abscesso, uma infecção por bactéria, mas a base do tratamento é o antifúngico por via oral. Não aperte nem fure a área em casa.
O kerion merece avaliação rápida: quando o tratamento demora, pode deixar uma área definitiva sem cabelo, com cicatriz.
Micose, alopecia areata, tricotilomania ou caspa: como diferenciar?
| Micose (tinha) | Alopecia areata | Tricotilomania | |
|---|---|---|---|
| Pele da falha | Descama; pode ficar vermelha ou inchada | Lisa, sem descamação | Em geral sem descamação nem inflamação |
| Fios na falha | Quebrados rente à pele, às vezes com pontos pretos | Falha bem delimitada, quase sem fios | Quebrados em tamanhos diferentes |
| Ínguas | Comuns, atrás da orelha e na nuca | Não costumam aparecer | Não costumam aparecer |
| Pega? | Sim | Não | Não |
A alopecia areata é autoimune e não pega. A tricotilomania é o hábito de arrancar os próprios fios. Como algumas formas de micose lembram a alopecia areata, a confirmação vem do exame.
A caspa, forma leve da dermatite seborreica, e a psoríase também descamam e coçam, mas em geral não deixam fios quebrados nem pontos pretos, como explicamos em psoríase no couro cabeludo ou caspa?. Outras causas de falha estão na página de investigação da queda de cabelo.
Como a médica confirma que é micose?
A consulta começa pela conversa: quando a falha apareceu, se alguém da casa tem lesões parecidas, se a criança convive com gato ou cachorro e o que já foi usado. A tricoscopia, o exame do couro cabeludo com aumento, pode mostrar fios de formato típico da micose, como os fios em vírgula e em saca-rolhas.
A confirmação vem do exame micológico: um pouco de escama e alguns fios da área são examinados ao microscópio e semeados em cultura. O exame direto sai mais rápido. A cultura identifica o fungo, inclusive se ele costuma vir de pessoas ou de animais, mas leva semanas para ficar pronta. Por isso, quando o quadro é típico, o tratamento costuma começar antes e pode ser ajustado depois do resultado.
Por que creme sozinho não resolve?
Porque o fungo vive dentro do fio e na raiz, onde creme e pomada não chegam. A micose no couro cabeludo costuma ser tratada com antifúngico por via oral, prescrito depois da avaliação:
- Duração: em geral de quatro a oito semanas, às vezes mais, conforme o fungo e o medicamento. Alguns pedem exames de sangue durante o uso.
- Xampu antifúngico: complemento que diminui a liberação de esporos e o contágio, sem substituir o remédio por via oral.
- Tempo completo: o remédio é tomado pelo tempo indicado, mesmo que a falha melhore antes. Parar cedo pode impedir a cura.
- Reavaliação: no fim, uma nova avaliação confirma a cura, e o exame micológico pode ser repetido.
Na forma comum, o cabelo costuma voltar a crescer depois do tratamento. No kerion tratado tarde, pode ficar uma área sem cabelo definitiva.
O que evitar:
- Pomada com corticoide, inclusive as que misturam antifúngico, antibiótico e corticoide: pode piorar a micose e apagar os sinais que ajudam no diagnóstico, como mostra o texto sobre micoses de pele.
- Tratar só com creme, pomada ou xampu, que não chegam à raiz do fio.
- Usar sobras de remédio ou remédio de outra pessoa da casa.
A micose no couro cabeludo pega? E a escola?
Pega. A tinha passa pelo contato com pessoas ou animais infectados e por objetos que tocam a cabeça, como pente, escova, boné, fronha, toalha e máquina de cortar cabelo, onde os esporos do fungo podem continuar vivos por meses. Pegar micose não é sinal de descuido: ela atinge principalmente crianças saudáveis.
Em geral, a criança não precisa deixar de ir à escola. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, ela pode frequentar as aulas, com o cuidado de não compartilhar chapéu, pente, escova e casaco. O serviço de saúde britânico (NHS) orienta a ida à escola ou à creche depois do início do tratamento, avisando os professores. Na prática:
- avise a escola e siga a regra dela, que pode ser mais rígida;
- mande pente, escova e boné de uso só da criança;
- nas duas primeiras semanas de tratamento, evite esportes com contato de cabeça, como luta;
- peça o atestado na consulta, se a escola exigir.
Irmãos e animais de estimação também precisam de cuidado?
Sim. Irmãos e outras pessoas da casa devem ser examinados, e quem tiver a micose é tratado ao mesmo tempo, para um não devolver o fungo ao outro. Em alguns casos, o xampu antifúngico é indicado também para quem convive com a criança.
Gatos, cães e roedores de estimação podem transmitir o fungo, principalmente filhotes de gato e animais vindos da rua. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, em São Paulo e no Sul do país a micose do couro cabeludo é causada com mais frequência pelo Microsporum canis, um fungo que costuma vir de gatos e cães. Animal com falhas no pelo, descamação ou feridas deve ir ao veterinário: enquanto não for tratado, ele pode passar o fungo de novo para a criança. Em casa, lave fronhas, toalhas e bonés, limpe pentes e escovas e lave as mãos da criança depois de brincar com animais.
Quando procurar consulta logo?
- área inchada, dolorida ou com pus;
- falha que aumenta ou novas falhas;
- ínguas atrás da orelha ou na nuca junto com a falha;
- bolinhas pelo corpo depois do início do tratamento;
- outra pessoa da casa ou o animal com lesões.
Com febre, criança abatida ou vermelhidão quente que se espalha, procure atendimento no mesmo dia, com o pediatra ou no pronto-atendimento.
Micose no couro cabeludo: avaliação em São José dos Campos
A Dra. Simone Vitor atende crianças de todas as idades no Centro de São José dos Campos, em consulta de 60 minutos com a família presente e tricoscopia inclusa. Fotos da falha desde que apareceu, a lista de cremes e xampus já usados e a informação sobre animais com quem a criança convive ajudam na avaliação. Outras queixas da infância estão no texto sobre quando levar seu filho ao dermatologista.
Conheça o atendimento dermatológico para crianças ou veja os horários para reservar a consulta.
Imagem de capa: Fungal infection on head scalp, foto de Vis M, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Recortada e redimensionada; a versão adaptada segue a mesma licença.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Dermatologia. Infecções fúngicas superficiais. Documento científico nº 8, julho de 2020. Seção sobre tinea capitis.
- Sociedade Brasileira de Dermatologia. Micose.
- NHS. Micose (ringworm). Couro cabeludo, escola e animais de estimação.
- American Academy of Dermatology. Micose: sinais e sintomas e diagnóstico e tratamento.
- CDC. Sobre a micose (ringworm). Transmissão e alerta sobre cremes com corticoide.
- DermNet. Tinea capitis e kerion. Tricoscopia, sobrevivência dos esporos, animais e contatos da casa.
- Ely JW, Rosenfeld S, Seabury Stone M. Diagnosis and Management of Tinea Infections. American Family Physician, 2014 (PMID 25403034). Ínguas, contatos da casa, volta à escola e esportes de contato.
- Xu L, Liu KX, Senna MM. A Practical Approach to the Diagnosis and Management of Hair Loss in Children and Adolescents. Frontiers in Medicine, 2017 (PMID 28791288). Causas mais comuns de falha de cabelo na infância.
Micose no couro cabeludo pega?+
Pega. A tinha passa pelo contato com pessoas ou animais infectados e por pente, escova, boné, fronha e toalha. Irmãos e animais da casa devem ser avaliados, e os objetos de cabeça não devem ser compartilhados durante o tratamento.
Criança com micose no couro cabeludo pode ir à escola?+
Em geral, sim. A Sociedade Brasileira de Pediatria considera que ela pode frequentar a escola sem compartilhar chapéu, pente, escova e casaco, e o NHS orienta a ida depois do início do tratamento. Avise a escola e siga a regra dela.
Pomada resolve micose no couro cabeludo?+
Em geral, não. O fungo fica dentro do fio e na raiz, onde cremes e pomadas não chegam. O tratamento costuma ser feito com antifúngico por via oral por algumas semanas, e o xampu antifúngico entra como complemento para reduzir o contágio.
Quanto tempo dura o tratamento da micose no couro cabeludo?+
Em geral, de quatro a oito semanas de antifúngico por via oral, às vezes mais, conforme o fungo e o medicamento. O remédio é tomado pelo tempo indicado mesmo que a falha melhore antes, e uma reavaliação no fim confirma a cura.
Como saber se a falha no cabelo é micose ou alopecia areata?+
Na micose, a falha costuma descamar, os fios ficam quebrados rente à pele e pode haver ínguas atrás da orelha. Na alopecia areata, a pele da falha é lisa e sem descamação. A confirmação vem do exame do couro cabeludo e do exame micológico.
O cabelo volta a crescer depois da micose?+
Na forma comum, o cabelo costuma voltar a crescer depois do tratamento. No kerion, a forma inflamada, o tratamento tardio pode deixar uma área sem cabelo definitiva, por isso ele pede avaliação rápida.
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