Dra. Simone Vitor Dermatologia
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Doenças de pele
06 de agosto de 2026 · 9 min de leitura

Micoses de pele: pé de atleta, virilha, corpo e unha — como diferenciar

Por Dra. Simone Vitor · Dermatologista · CRM-SP 184.235 · RQE 99.098
Escrito e revisado pela Dra. Simone Vitor · atualizado em 06 de agosto de 2026
Micoses de pele: pé de atleta, virilha, corpo e unha — como diferenciar

"Micose" é uma palavra guarda-chuva. Debaixo dela cabem quadros bem diferentes: uma coceira entre os dedos dos pés, uma mancha em anel no braço, uma vermelhidão que arde na virilha, uma unha que engrossou e uma descamação branca nas costas. Todos são infecções por fungos, mas os fungos não são os mesmos, e o tratamento muda bastante.

Vale entender a diferença, porque o erro mais comum é tratar tudo com o mesmo creme.

Os três grupos de fungos que causam micose superficial

  • Dermatófitos: fungos que se alimentam de queratina e por isso vivem na camada mais superficial da pele, nos pelos e nas unhas. Causam as tinhas, que recebem sobrenome conforme o lugar: tinea pedis, cruris, corporis, capitis, unguium;
  • Leveduras do gênero Candida — habitantes normais do nosso corpo que se tornam problema quando encontram umidade, calor e alguma condição favorecedora, como diabetes ou uso recente de antibiótico;
  • Fungos do gênero Malassezia, também da flora normal da pele, responsáveis pela pitiríase versicolor, o popular "pano branco". Já escrevi sobre ela separadamente em pano branco: pitiríase versicolor.

O que todos têm em comum é o ambiente que os favorece: calor, umidade e oclusão. É por isso que micose é assunto de país tropical, de sapato fechado o dia inteiro e de roupa de academia que fica no corpo depois do treino.

Pé de atleta (tinea pedis)

A micose mais comum de todas. Tem três apresentações:

  • Interdigital: a clássica: pele branca, amolecida e descamativa entre os dedos, especialmente entre o quarto e o quinto, com coceira e mau odor. Pode rachar e arder;
  • Em mocassim: descamação seca e fina cobrindo a sola e as laterais do pé, como se fosse apenas pele ressecada. É a forma mais subdiagnosticada, justamente porque coça pouco e parece ressecamento;
  • Vesicobolhosa: bolhas na planta ou no arco do pé, com coceira intensa, em surtos.

Por que importa tratar: as fissuras entre os dedos são porta de entrada para bactérias, e o pé de atleta é uma causa frequente de erisipela, uma infecção bacteriana séria da perna. Em pessoas com diabetes, essa preocupação é ainda maior.

Micose de virilha (tinea cruris)

Placa avermelhada que começa na dobra da virilha e se estende para a face interna da coxa, com borda bem definida, ativa e mais avermelhada, enquanto o centro tende a clarear. Coça e arde, e piora com suor e roupa apertada.

Duas informações úteis:

  • Costuma vir do próprio pé. A pessoa tem pé de atleta e leva o fungo para a virilha ao vestir a roupa íntima. Por isso, tratar a virilha sem tratar o pé é receita para recidiva;
  • Poupa o escroto, o que ajuda a diferenciar de candidíase, que costuma envolvê-lo.

Micose do corpo, a popular impingem

É a mancha em anel: uma placa arredondada, com borda avermelhada, elevada e descamativa, e o centro mais claro, dando o aspecto de alvo. Cresce de forma centrífuga.

Uma origem que sempre investigo: contato com animais. Filhote de gato ou cachorro recém-adotado é fonte frequente, e nesses casos o quadro costuma ser mais inflamatório. Se o animal está com falhas de pelo, ele também precisa de tratamento (senão a reinfecção é garantida).

Candidíase de pele

Diferente das tinhas no aspecto: aqui a placa é vermelho-vivo, brilhante, úmida, ocupa o fundo da dobra e apresenta pequenas lesões satélites espalhadas ao redor da borda principal, esse é o sinal mais característico.

Aparece em dobras: sob as mamas, nas dobras abdominais, nas axilas, na virilha, entre os dedos, e nos cantos da boca (a queilite angular, a "boqueira"). Em bebês, é uma causa comum de assadura que não melhora com creme de barreira, tema que abordei em assadura e dermatite de fraldas.

Candidíase de repetição em adulto merece investigação. Diabetes mal controlado é a causa mais comum, e não é raro que a micose de dobra seja o primeiro sinal.

Micose de unha (onicomicose)

A unha fica espessa, opaca, amarelada ou acastanhada, esfarela nas bordas e pode descolar do leito. Começa em geral pela borda livre e avança em direção à cutícula.

Três pontos que sempre explico:

  • Nem toda unha alterada é micose. Psoríase ungueal, traumas repetidos pelo calçado e outras condições produzem quadros parecidos. Escrevi sobre a versão psoriásica em psoríase nas unhas;
  • O exame laboratorial vale a pena, justamente porque o tratamento é longo. Confirmar antes de submeter alguém a meses de medicação é bom senso;
  • O tratamento é demorado, porque depende do crescimento da unha: são meses na mão e podem ser mais de um ano no pé. Esmaltes medicamentosos resolvem casos iniciais e limitados; acometimento extenso, da matriz, ou de várias unhas costuma exigir tratamento oral, com avaliação de exames e de interações medicamentosas.

O erro mais comum: a pomada com corticoide

Este é o motivo pelo qual muita micose chega ao consultório irreconhecível.

Muitos cremes de venda livre combinam antifúngico com corticoide. O corticoide reduz a vermelhidão e a coceira em poucos dias (a pessoa acha que melhorou). Mas ele também suprime a defesa local, e o fungo se aproveita: cresce mais, se espalha, e a lesão perde a borda característica que permitiria o diagnóstico.

O resultado tem nome: tinha incógnita. Uma micose disfarçada de eczema, que já foi tratada por meses com a coisa errada. Quando finalmente é examinada, o quadro está extenso e o diagnóstico, mais difícil.

Regra prática: mancha que coça, tem borda ativa e melhora com corticoide para logo em seguida piorar? Desconfie de fungo e procure avaliação antes de repetir o creme.

Como se trata e como não voltar

O tratamento é escolhido pelo tipo de fungo, pela extensão e pelo local: antifúngico tópico resolve a maioria dos quadros localizados de pele, aplicado por tempo suficiente, e "tempo suficiente" quase sempre significa continuar por uma a duas semanas depois que a lesão sumiu, porque parar ao primeiro sinal de melhora é a principal causa de recidiva. Tratamento oral entra em micoses extensas, de couro cabeludo, de unha e nas que não responderam ao tópico.

As medidas que evitam o retorno valem tanto quanto o remédio:

  • Secar bem as dobras e entre os dedos após o banho;
  • Alternar os calçados, para que sequem por completo; preferir meias de algodão e trocar diariamente;
  • Chinelo em vestiários, saunas e beira de piscina;
  • Tirar a roupa de treino logo após o exercício;
  • Não compartilhar toalha, alicate de unha ou calçado;
  • Tratar o pé mesmo quando a queixa é a virilha: é de lá que costuma vir;
  • Controlar o diabetes, quando for o caso.

Quando procurar avaliação

Procure um dermatologista se a lesão não melhora com o tratamento inicial, se volta sempre, se atinge unhas ou couro cabeludo (que praticamente sempre exigem tratamento oral), se você tem diabetes ou imunidade comprometida, ou se já usou creme com corticoide e o quadro mudou de cara.

Micose é banal, mas o diagnóstico errado transforma uma coisa simples em um problema de meses.


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Texto escrito e revisado pela Dra. Simone Vitor — Dermatologista · CRM-SP 184.235 · RQE 99.098. Conteúdo educativo; não substitui a consulta médica.

Imagem de capa: ilustrativa, gerada por inteligência artificial — não retrata paciente real.

Fontes consultadas:

Perguntas frequentes
Por que a micose volta sempre?+

As três causas mais comuns são interromper o tratamento assim que a lesão some, não tratar o reservatório e manter as condições que favorecem o fungo. O antifúngico deve ser mantido por uma a duas semanas após o desaparecimento da lesão, o pé precisa ser tratado mesmo quando a queixa é a virilha, e medidas como secar bem as dobras e alternar calçados fazem parte do tratamento.

Creme de farmácia com corticoide serve para micose?+

É justamente o que se deve evitar sem orientação. O corticoide alivia a coceira e a vermelhidão rapidamente, mas suprime a defesa local e permite que o fungo se espalhe, apagando as características que permitiriam o diagnóstico. O resultado é a chamada tinha incógnita, uma micose disfarçada de eczema e bem mais difícil de tratar.

Micose de unha tem cura?+

Tem, mas o tratamento é longo porque depende do crescimento da unha: meses nas mãos e frequentemente mais de um ano nos pés. Casos iniciais e limitados podem responder a esmaltes medicamentosos; acometimento extenso, da matriz ou de várias unhas costuma exigir tratamento oral, com avaliação prévia de exames e de interações medicamentosas.

Como diferenciar micose de corpo de outras manchas?+

A micose de corpo forma uma placa arredondada com borda avermelhada, elevada e descamativa, e o centro mais claro, com crescimento centrífugo — o aspecto de anel. Eczemas e psoríase têm padrões diferentes. Se houve uso prévio de corticoide, o aspecto pode estar descaracterizado, e nesse caso o exame micológico ajuda a esclarecer.

Micose pega de animal de estimação?+

Pega. Filhotes de gato e de cachorro são fonte frequente de dermatófitos, e nesses casos a lesão costuma ser mais inflamatória. Se o animal apresenta falhas de pelo ou descamação, ele também precisa ser tratado pelo veterinário — caso contrário, a reinfecção é praticamente certa.

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