Dermatite de contato: quando o problema é o que encosta na pele
Imagem ilustrativa.
Existe um tipo de lesão de pele que praticamente entrega o diagnóstico pela forma. Uma placa vermelha retangular no punho, do tamanho exato da tampa do relógio. Uma faixa avermelhada na cintura, onde encosta o botão da calça. Duas manchas nos lóbulos das orelhas, uma de cada lado.
Quando a pele desenha o formato de um objeto, o raciocínio vai direto para dermatite de contato.
O que é
Dermatite de contato é uma inflamação da pele desencadeada por algo que entrou em contato com ela.
O nome descreve o mecanismo. Não é uma doença que nasce de dentro: é uma resposta a um agente externo. Isso muda tudo no tratamento, porque tratar sem afastar o agente costuma dar resultado temporário.
Ela se divide em dois tipos, com mecanismos bem diferentes.
Dermatite de contato irritativa
É a mais frequente, respondendo pela maioria dos casos.
Aqui não há alergia envolvida. A substância agride diretamente a barreira da pele, e o dano é proporcional à concentração e ao tempo de exposição. Em quantidade suficiente, acontece com qualquer pessoa.
Os cenários clássicos:
- Mãos de quem lava louça, limpa a casa ou trabalha com água o dia todo. Detergente, sabão e água quente removem a gordura protetora da pele.
- Profissionais de saúde e da alimentação, pela lavagem repetida das mãos.
- Cabeleireiras, pelo contato constante com água e produtos.
- Assadura em bebês, pelo contato prolongado com urina e fezes, tema que a gente trata em assadura que não melhora.
O quadro típico é de pele ressecada, áspera, avermelhada, com fissuras que ardem mais do que coçam. Costuma piorar ao longo da semana de trabalho e melhorar nas férias, o que é uma pista importante.
Dermatite de contato alérgica
Aqui existe um mecanismo imunológico. O sistema de defesa reconhece uma substância específica e reage a ela.
O processo tem duas etapas. Primeiro a sensibilização, que pode levar semanas, meses ou anos de contato sem qualquer sintoma. Depois, uma vez sensibilizada, a pessoa passa a reagir a quantidades mínimas, e a reação aparece em geral 24 a 72 horas após a exposição.
Esse atraso é o que mais confunde. A pessoa relaciona o problema ao que fez naquela manhã, quando a causa foi o contato de anteontem.
Os culpados mais frequentes
Níquel. O campeão. Está em bijuterias, brincos, fivelas de cinto, botões de calça jeans, armações de óculos, chaves e alguns objetos metálicos. A lesão aparece exatamente onde o metal encosta.
Cosméticos e produtos de higiene, sobretudo por conservantes e fragrâncias. Isso inclui produtos anunciados como naturais, porque natural não significa hipoalergênico.
Tintura de cabelo, com destaque para a parafenilenodiamina. Costuma acometer o couro cabeludo, as orelhas, a nuca e a linha de implantação.
Borracha e látex, em luvas, elásticos de roupa e calçados.
Medicamentos tópicos, incluindo alguns antibióticos e anti-inflamatórios de uso local. É um paradoxo comum: a pomada usada para tratar acaba mantendo o problema.
Esmaltes e produtos de unha, com um detalhe curioso: a lesão frequentemente aparece nas pálpebras e no pescoço, e não nos dedos, porque a mão leva o produto até lá.
Como se descobre o responsável
Três ferramentas, em ordem.
A história clínica. É a mais poderosa. O que a pessoa faz, o que usa, o que mudou, quando piora, se melhora nas férias ou no fim de semana. Muitos casos se resolvem aqui.
A localização das lesões. A distribuição costuma apontar o agente. Pálpebras sugerem cosméticos, esmalte ou produtos levados pelas mãos. Pés indicam componentes do calçado. Pescoço e punhos apontam para metais.
O teste de contato. Quando a suspeita não se confirma, esse exame aplica substâncias padronizadas nas costas, em pequenas câmaras, mantidas por 48 horas, com leituras em dias distintos. Ele identifica a substância a que a pessoa está sensibilizada.
O que confunde o diagnóstico
Nem toda pele vermelha que coça é dermatite de contato.
Dermatite atópica costuma ter história desde a infância, envolver dobras e vir acompanhada de pele seca generalizada. Falamos dela em dermatite atópica no adulto.
Micose pode ter borda mais ativa e crescimento centrífugo, e é tema de micoses de pele: tipos e tratamento.
Psoríase tem placas mais espessas, com escamas prateadas e locais preferenciais bem definidos.
Um detalhe prático: usar corticoide por conta própria numa lesão que na verdade é micose costuma piorar o quadro e apagar as características que permitiriam o diagnóstico.
O tratamento
Três frentes, e nenhuma delas dispensa a outra.
Afastar o agente. É o único passo que resolve de verdade. Sem ele, o resto é paliativo.
Restaurar a barreira. Hidratante adequado, sabonete suave, água morna em vez de quente e, no caso das mãos, luvas de proteção com forro de algodão para tarefas úmidas.
Controlar a inflamação. Corticoide tópico na potência e pelo tempo adequados, escolhidos conforme a região do corpo. Em casos extensos ou resistentes, outras opções entram em cena.
Quando a lesão volta sempre no mesmo lugar, ou quando as mãos não fecham as fissuras, vale investigar em vez de repetir a mesma pomada.
Referências
Qual a diferença entre dermatite de contato irritativa e alérgica?+
A irritativa é um dano direto à barreira da pele e pode acontecer com qualquer pessoa exposta o suficiente, como nas mãos de quem lava louça o dia todo. A alérgica depende de uma sensibilização prévia do sistema imune a uma substância específica, e por isso só ocorre em quem já se sensibilizou.
O que é o teste de contato?+
É um exame em que substâncias padronizadas são aplicadas nas costas em pequenas câmaras e mantidas por 48 horas. As leituras são feitas em dias diferentes e ajudam a identificar a substância responsável pela alergia.
Alergia a níquel tem cura?+
A sensibilização é duradoura, em geral para a vida toda. O controle vem de evitar o contato com o metal e de tratar as crises. Bijuterias, fivelas, botões de calça e alguns objetos metálicos são fontes frequentes.
Posso usar pomada de corticoide por conta própria?+
Não é recomendado. Corticoide tópico funciona bem quando é o certo, na potência certa e pelo tempo certo. Usado de forma prolongada ou em local inadequado, como o rosto e as dobras, pode afinar a pele e causar outros efeitos.
Quanto tempo demora para a pele melhorar?+
Depois que o contato é interrompido e o tratamento começa, a melhora costuma vir em uma a três semanas. Quando a exposição continua, mesmo que sem perceber, o quadro se arrasta e parece resistente ao tratamento.
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