Escabiose (sarna): a coceira que piora à noite e não é falta de higiene
Imagem ilustrativa.
A história costuma seguir um roteiro. Primeiro uma coceira discreta, atribuída a sabão novo ou tecido. Depois a coceira fica insuportável à noite, a ponto de atrapalhar o sono. Passa uma semana ou duas e outra pessoa da casa começa a coçar.
Esse conjunto tem nome: escabiose, popularmente sarna.
E vale começar desfazendo o estigma, porque ele atrasa o diagnóstico: escabiose não tem relação com falta de higiene. Ela se transmite por contato pele a pele, e atinge qualquer pessoa.
O que causa
A escabiose é causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei, que se instala na camada superficial da pele.
A fêmea escava túneis na epiderme, onde deposita ovos. O ciclo completo dura cerca de duas a três semanas. Toda a coceira e a vermelhidão que aparecem são, na verdade, uma reação alérgica do organismo ao ácaro, aos ovos e aos resíduos deixados nos túneis.
Isso explica dois fatos que confundem muita gente. O primeiro é que os sintomas podem demorar de 2 a 6 semanas para surgir numa primeira infestação, porque o corpo precisa se sensibilizar. O segundo é que, em quem já teve escabiose antes, a coceira aparece em poucos dias.
Um número que costuma surpreender: numa infestação comum, o número de ácaros na pele é relativamente pequeno, algo em torno de uma a duas dezenas. A intensidade dos sintomas não é proporcional à quantidade de parasitas, e sim à resposta imune.
Onde a coceira aparece
A distribuição é bastante característica em adultos:
- Entre os dedos das mãos, nos espaços interdigitais.
- Punhos, na face flexora.
- Axilas.
- Cintura e ao redor do umbigo.
- Nádegas e coxas.
- Mamas, nas mulheres.
- Genitália, nos homens, onde podem surgir nódulos avermelhados persistentes.
Em adultos, a cabeça e o pescoço costumam ser poupados. Já em bebês e crianças pequenas essa regra não vale: eles podem apresentar lesões em couro cabeludo, rosto, palmas das mãos e plantas dos pés.
O sinal que fecha o diagnóstico
O achado mais específico é o túnel escabiótico: uma linha fina, curta, acinzentada ou da cor da pele, ligeiramente sinuosa, de poucos milímetros, com frequência terminando em uma pequena elevação.
Ele não é fácil de ver, especialmente quando a pessoa já coçou muito e criou escoriações que mascaram tudo. Mas quando aparece, é bastante característico.
O restante do quadro costuma incluir pápulas avermelhadas, marcas de coçadura, crostas e, com o tempo, espessamento da pele nas áreas mais atingidas.
O diagnóstico é clínico na maioria das vezes, apoiado na distribuição das lesões, no padrão noturno da coceira e, principalmente, na presença de outras pessoas da casa com sintomas semelhantes. A dermatoscopia ajuda a identificar o ácaro na extremidade do túnel.
A forma grave
Existe uma apresentação diferente, a escabiose crostosa, que ocorre em pessoas com imunidade comprometida, idosos debilitados e pacientes institucionalizados.
Nela, o número de ácaros é altíssimo, a pele fica coberta por crostas espessas e, curiosamente, a coceira pode ser discreta ou ausente. É extremamente contagiosa e exige abordagem específica e rápida.
Por que tantos tratamentos falham
Aqui está o ponto mais importante deste texto. A causa número um de falha não é o remédio errado. É tratar apenas quem está coçando.
Como os sintomas demoram semanas para aparecer, as outras pessoas da casa podem já estar infestadas e ainda assintomáticas. Se apenas uma pessoa trata, ela se cura e é reinfestada dias depois.
Todos os contatos próximos precisam ser tratados ao mesmo tempo, mesmo sem sintomas. Isso inclui quem mora na mesma casa, parceiros sexuais e, dependendo da situação, cuidadores.
Outros erros frequentes:
- Aplicar o produto só onde coça, em vez de todo o corpo do pescoço para baixo, conforme a orientação da medicação escolhida.
- Não repetir a aplicação quando o esquema prevê uma segunda dose.
- Interromper por achar que melhorou.
- Repetir a medicação sem parar por causa da coceira residual, o que irrita a pele.
O tratamento
Existem opções tópicas e orais, e a escolha depende da idade, do peso, da gestação, da amamentação, da extensão e do contexto (por exemplo, um surto em ambiente coletivo). Diretrizes internacionais publicadas recentemente organizam bem essas indicações.
Alguns princípios gerais:
- Aplicação de acordo com a orientação específica da medicação escolhida, respeitando tempo de contato e áreas.
- Tratamento simultâneo dos contatos.
- Segunda aplicação quando indicada, para atingir os ácaros que eclodiram depois da primeira.
- Cuidado com as medidas ambientais no mesmo dia do tratamento.
Sobre roupas e cama: lavar em água quente e secar em alta temperatura ou passar. Itens que não podem ser lavados podem ficar isolados em saco plástico fechado por alguns dias, porque o ácaro não sobrevive muito tempo fora do hospedeiro.
A coceira que continua
Prepare-se para isso: a coceira pode persistir por 2 a 4 semanas mesmo com o tratamento bem feito e o ácaro eliminado. É a reação alérgica que leva tempo para ceder.
Isso não significa falha, e o manejo dessa fase costuma incluir hidratação e medicações para o prurido. Repetir o escabicida por conta própria costuma piorar a irritação da pele.
Procure reavaliação se surgirem novos túneis, se a coceira estiver piorando em vez de melhorando após algumas semanas, ou se aparecerem sinais de infecção secundária, como pus, dor e vermelhidão que se espalha.
Referências
Sarna é falta de higiene?+
Não. A escabiose se transmite por contato pele a pele prolongado e atinge todas as classes sociais e todos os níveis de higiene. Banho frequente não previne nem elimina a infestação.
Por que coça mais à noite?+
A fêmea do ácaro é mais ativa no período noturno, quando a pele fica mais quente. A coceira em si é uma reação alérgica ao ácaro, aos ovos e aos resíduos que ele deixa nos túneis.
Precisa tratar quem mora junto mesmo sem coceira?+
Sim, e essa é a causa mais comum de falha do tratamento. Os contatos próximos devem ser tratados ao mesmo tempo, porque uma pessoa pode estar infestada e ainda não apresentar sintomas, já que eles podem demorar semanas para aparecer.
Depois do tratamento a coceira some na hora?+
Não. A coceira pode persistir por 2 a 4 semanas mesmo com o ácaro eliminado, porque a reação alérgica leva tempo para ceder. Isso não significa que o tratamento falhou, e repetir a medicação por conta própria pode irritar a pele.
O que fazer com roupas e roupa de cama?+
Lavar em água quente e secar em temperatura alta ou passar. O que não puder ser lavado pode ficar fechado em saco plástico por alguns dias, já que o ácaro não sobrevive muito tempo longe da pele humana.
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