Verrugas em crianças: por que aparecem e quando realmente precisam de tratamento
A cena é conhecida: a mãe aperta a mão da criança na saída da escola e sente uma aspereza no dedo. Olha e encontra uma bolinha dura, da cor da pele, com pontinhos escuros no meio. Em algumas semanas aparece outra ao lado. E vem a pergunta que traz a família ao consultório: isso é grave e como faço para sumir?
A resposta curta é: não é grave, e às vezes o melhor tratamento é o tempo.
O que é uma verruga
Verruga é uma infecção da pele causada pelo papilomavírus humano (HPV). Há dezenas de tipos desse vírus, e os que causam verrugas comuns em mãos, joelhos e pés são diferentes dos tipos associados a doenças do colo do útero. Digo isso com todas as letras, porque a palavra HPV assusta os pais: a verruga da mão do seu filho não tem relação com aquilo.
O vírus entra por pequenas falhas na pele (um machucadinho, uma unha roída, a pele amolecida da beira da piscina) e faz as células da camada mais superficial se multiplicarem em excesso. O resultado é aquela elevação de superfície áspera. Os pontinhos escuros que aparecem no centro não são "raízes", como se costuma dizer: são capilares trombosados, vasinhos da própria lesão.
A transmissão acontece por contato direto e por superfícies, chão de vestiário, borda de piscina, toalha compartilhada. E há a autoinoculação: a criança coça ou rói uma verruga e leva o vírus para outro ponto do próprio corpo. É por isso que elas se multiplicam em fila, ao longo de um arranhão.
Os tipos que mais aparecem na infância
- Verruga vulgar: a mais comum: elevada, áspera, cor da pele, em dorso das mãos, dedos e joelhos;
- Verruga plantar: na sola do pé. Como o peso do corpo a empurra para dentro, cresce para dentro e dói ao pisar. É frequentemente confundida com calo; o que ajuda a distinguir é que a verruga interrompe as linhas naturais da pele e dói quando comprimida lateralmente, enquanto o calo dói à pressão direta;
- Verruga plana: pequenas, achatadas, em grande número, geralmente no rosto e no dorso das mãos. Espalham-se com facilidade pelo ato de coçar ou pelo barbear em adolescentes;
- Verruga filiforme: alongada, fina, típica ao redor da boca, do nariz e das pálpebras.
Um diagnóstico que costuma se confundir com verruga é o molusco contagioso, que também é viral e comum em crianças, mas tem aspecto e evolução próprios, escrevi sobre ele em molusco contagioso em crianças.
O diagnóstico é clínico. A dermatoscopia ajuda nos casos duvidosos, mostrando os capilares característicos e diferenciando de calos e de outras lesões.
O dado que muda a conversa: elas somem sozinhas
Este é o ponto central deste texto, e a informação que mais tranquiliza os pais.
As verrugas são combatidas pelo próprio sistema imune. Esse processo é lento, mas eficaz, e é mais eficiente em crianças do que em adultos. A literatura aponta que até cerca de dois terços das verrugas desaparecem espontaneamente em um período de aproximadamente dois anos na população pediátrica, sem nenhum tratamento.
Isso justifica uma conduta que tem nome próprio: a espera vigilante. Acompanhar sem intervir é uma decisão médica legítima, e muitas vezes a melhor, em uma criança com poucas lesões, que não doem e não incomodam.
Por que não tratar sempre, já que existe tratamento? Porque todo tratamento de verruga tem custo: dói, exige várias sessões, pode deixar marca e nem sempre funciona na primeira tentativa. Em uma criança pequena, submeter a sessões repetidas de um procedimento desconfortável para tratar algo que iria embora sozinho nem sempre é o melhor negócio.
Então quando tratar?
O tratamento é indicado quando há uma razão concreta:
- Dor ou limitação funcional: a verruga plantar que atrapalha caminhar ou praticar esportes é o exemplo clássico;
- Localização que incomoda: rosto, ao redor das unhas, áreas visíveis que geram constrangimento na escola;
- Lesões que estão crescendo ou se multiplicando rapidamente;
- Verrugas periungueais: ao redor das unhas, associadas ao hábito de roer, porque tendem a se espalhar e são mais difíceis de tratar depois;
- Crianças com dermatite atópica ou com imunidade comprometida, em que a disseminação é mais provável;
- Persistência por muito tempo sem qualquer sinal de regressão.
Como se trata
O princípio comum a quase todos os métodos é destruir a lesão e, ao mesmo tempo, provocar uma reação local que chame a atenção do sistema imune para o vírus.
- Agentes queratolíticos tópicos: aplicação domiciliar, diária, de substâncias que vão desgastando a lesão camada por camada. É a primeira escolha em criança pela ausência de dor, mas exige constância: são semanas a meses de aplicação, e a maior causa de falha é o abandono;
- Crioterapia: congelamento com nitrogênio líquido, feito no consultório em sessões repetidas a cada poucas semanas. É eficaz, especialmente em verrugas fora da planta do pé, mas arde na hora e a criança precisa colaborar;
- Outras opções: cauterização, imunoterapia tópica e substâncias específicas, reservadas a casos resistentes ou muito numerosos.
Ensaios que compararam crioterapia, tratamento tópico e a simples observação mostraram vantagem da crioterapia em verrugas não plantares, sem diferença clinicamente relevante nas plantares, mais um argumento para individualizar em vez de tratar tudo do mesmo jeito.
O que não fazer: cortar, queimar, furar ou usar receitas caseiras. Além de doer e não funcionar, isso espalha o vírus e pode infectar a lesão.
Como reduzir a disseminação
- Não deixar a criança coçar, roer ou cutucar as verrugas, é a principal via de multiplicação;
- Manter as lesões cobertas em piscinas e vestiários, e usar chinelo nessas áreas;
- Toalha e material de higiene individuais;
- Tratar o hábito de roer unha, que é o grande responsável pelas verrugas periungueais.
Quando procurar avaliação
Marque uma consulta se a verruga dói, se está se multiplicando, se fica no rosto ou ao redor das unhas, se não muda há muito tempo, ou se você simplesmente não tem certeza de que é verruga. Nem toda lesão elevada em criança é verruga, e o diagnóstico correto evita tratar por meses a coisa errada.
E se a conclusão da consulta for "vamos apenas acompanhar", isso não é descaso. Em verruga infantil, muitas vezes é a melhor medicina.
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Texto escrito e revisado pela Dra. Simone Vitor — Dermatologista · CRM-SP 184.235 · RQE 99.098. Conteúdo educativo; não substitui a consulta médica.
Imagem de capa: ilustrativa, gerada por inteligência artificial — não retrata paciente real.
Fontes consultadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria — Verruga
- Sociedade Brasileira de Dermatologia — Verrugas
- Actas Dermo-Sifiliográficas — Actualización sobre el tratamiento de las verrugas vulgares en los niños
Verruga em criança some sozinha?+
Frequentemente sim. A literatura aponta que até cerca de dois terços das verrugas desaparecem espontaneamente em torno de dois anos em crianças, pela ação do próprio sistema imune. Por isso a espera vigilante é uma conduta legítima quando as lesões são poucas, não doem e não incomodam.
Verruga de criança tem a ver com o HPV do colo do útero?+
Não. Existem dezenas de tipos de papilomavírus humano, e os que causam verrugas comuns em mãos, joelhos e pés são diferentes dos tipos associados a lesões do colo do útero. A verruga na mão da criança não tem relação com aquele contexto.
Aqueles pontinhos pretos na verruga são a raiz?+
Não. Verruga não tem raiz. Os pontinhos escuros são capilares trombosados, ou seja, pequenos vasos da própria lesão. Essa é, inclusive, uma das características que ajudam a diferenciar uma verruga plantar de um calo na dermatoscopia.
Como diferenciar verruga plantar de calo?+
A verruga interrompe as linhas naturais da pele da sola do pé, costuma apresentar pontinhos escuros e dói mais quando comprimida lateralmente. O calo mantém as linhas da pele e dói à pressão direta. Na dúvida, a dermatoscopia esclarece rapidamente.
Posso tratar verruga com receita caseira?+
Não é recomendado. Cortar, furar, queimar ou aplicar produtos caseiros dói, costuma não funcionar, pode infectar a lesão e ainda espalha o vírus para outras áreas da pele por autoinoculação. Os tratamentos eficazes são tópicos queratolíticos de uso prolongado e procedimentos feitos em consultório.
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